sábado, 13 de janeiro de 2018

Apêndice

Eu sou um eterno masturbador de sonhos.
Indago-me: por que tudo é tão belo? Respondo-me: sou um erro Eu me considero feliz sabia Todos me chamam de depressivo, mas acredito que para estar vivendo há praticamente dezessete anos de pura dor, sofrimento, uma agonia sem olhos e sem língua Eu sou uma pessoa muito esperançosa para viver assim, para sobreviver assim, sou um grandiosíssimo destruidor de corações - seja ele de Renata ou de Gabi, tudo acaba, morrem por minha causa não percebe toda a ironia do mundo? Percebo, vejo que só o fim me resta, pego minha arma de fogo e fito o meu reflexo no espelho à lá o duelo de Eugênio Oneguin, estilhaço o vidro por puro prazer, quero destruição. 
Sou um eterno filho da puta, um masturbador de pesadelos. 
Mas continuo sonhando.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

O livro da minha vida


Por que eu amo tanto esse livro? Ele é enigmático, caótico, real e intimista. Por que ele me fascina tanto? Porque é recheado de som e fúria. Lembra toda a situação de como é viver em uma família antigamente próspera e que a cada dia se destrói mais - moral ou economicamente. Lembro de todas as obsessões que confrontaram minha formação de ética e justiça. É um álbum de fotos familiar destroçado, que transcende convenções de tempo e lógica. O livro citado, como o leitor já percebeu é O Som e a Fúria, de William Faulkner.

O meu primeiro contato com o autor foi com o romance Absalão, Absalão!, mas esse é assunto para outro post. Quando li O Som e a Fúria pela primeira vez foi o maior mindblow da minha vida, as sensações de ler a angustiante seção do Benjy e o avassalador monólogo do Quentin formaram o que eu definiria de tempo-não tempo, uma narração em que o tempo é essencial, mas supera os limites da não linearidade, formando um mosaico estilhaçado de três vozes que se conectam com uma narração final limpa e sem maniqueísmos - no dia da páscoa. O meu primeiro contato com O Som e a Fúria foi infernal, uma dificuldade extrema, parecia ser um romance escrito apenas por estética e com zero conteúdo...

Mas após diversas releituras foi possível perceber várias nuances únicas no texto Faulkneriano. Um bom exemplo é a forma que frases aparentemente soltas nos dois primeiros capítulos do romance já fazem sentido desde o começo da releitura. Os colossais desvios de tempo não atrapalham mais, fazem parte da moralidade e consciência do Benjy e do(do) Quentin; o circo está definido com a jornada da(sim, da) Quentin desde o começo; o pasto de terra; a (falta de) ética do Jason IV; o niilismo do Jason III...

A família Compson se destruiu pela ambição, ganância e amoralidade. Mas certamente uma nova era surgirá. Contudo esse passado monstruoso jamais poderá ser esquecido. Os horrores que vivemos há pouco tempo atrás sempre estarão conosco inevitavelmente, e o mestre Faulkner acredita que em meio de demônios, ao menos um anjo surgirá.

Agora vamos para dicas básicas para ler essa maravilha:
A primeira parte é narrada pelo autista Benjy, confusa mas possível de identificar o tempo narrativo pela ordem:
• Passado 1 - Versh, Enterro da avó.
• Passado 2 - T.P/casamento
•Presente - Luster/circo/golfe.

A segunda parte é pelo depressivo intelectual Quentin, com a metáfora do tempo perdido e da rebelião ao pai; o Quentin foi o personagem com o qual eu mais me identifiquei. Na primeira leitura foi de uma dificuldade absurda, agora consegui terminar toda essa tragédia com um prazer único. Mostra como uma vida pode passar do infeliz ao inferno. Quanto mais impulsivo o narrador fica, menos elaborado o texto avançará, mas também mais complexo.

A terceira é fácil, mas tem o chatíssimo Jason narrando, destruindo todos por questões financeiras. É o narrador mais vigarista e de pior índole. Explica pontos cruciais da história, mas é cansativo.

A quarta parte é terceira pessoa e mostra a páscoa, a provável redenção da alma e um réquiem definitivo para a família.

No final temos um apêndice com o passado e futuro dos personagens principais e citados na obra.

Para mim a experiência de ler Faulkner é como ver uma tela de Munch, uma obra de arte intimista e distorcida, mas que ao nos aprofundarmos nela se torna um verdadeiro estudo de nossos demônios, sejam exteriores ou principalmente interiores.

É um texto poético, patético, depressivo, humano e sensível e que para mim tem o título de melhor romance que já li. Leitura obrigatória para a vida, ao meu ver é um livro perfeito.



a tradução do Paulo Henriques Britto publicada primeiramente pela saudosa Cosac-Naify e agora pela Companhia das Letras é mais do que recomendada.




Folhas de Relva - um dos melhores volumes de poesia da história


"Sou o poeta do corpo e sou o poeta da alma,
Os prazeres do céu estão comigo e as dores do inferno estão [comigo,
O primeiro eu transplanto e amplio sobre mim e o segundo traduzo em uma nova língua." 
Canção de Mim Mesmo, parte 21.

Esse é Walt Whitman, considerado por muitos o maior poeta da literatura universal do século XIX(ao lado de Baudelaire, etc), que se torna o melhor amigo do leitor durante a leitura de Folhas de Relva, livro publicado pela primeira vez em 1855 em um pequeno volume com apenas 12 poemas(incluindo a colossal e já citada Canção de Mim Mesmo). As mudanças na vida de Whitman e no próprio cenário dos Estados Unidos(Guerra de Secessão e a urbanização espantosamente rápida) fizeram com que o grande poeta reescrevesse a obra diversas vezes, culminando em uma edição final com quase quatrocentos poemas, muitos de apenas uma ou duas estrofes mas que deixam os leitores mais sensíveis em um estado espiritualmente forte - seja pelo tom confidente do texto ou pela metafísica riquíssima presente nessa brilhante gema literária. 

A obra pode ser resumida bruscamente como um retrato íntimo do eu, da arte, dos cosmos, do amor, do cotidiano, da metafísica, da natureza... da vida. Com versos livres de arcaismos e métricas tradicionais; Whitman nos transporta para um idílico universo de democracia e espiritualismo próprios da mente de um gênio. A leitura é simplesmente deliciosa, passa por diversas vertentes que vão desde poemas filosóficos à peças abolicionistas, nesse ínterim somos presenteados com poesia histórico-nacionalista(de alto valor estético, alguns dos poucos que possuem rimas) e outros autobiográficos. Com seu estilo ao mesmo tempo metafórico e sucinto, viajamos pela alma humana: da felicidade à melancolia, da solidão ao amor carnal, da vida à morte, da morte ao infinito. Assim, Folhas de Relva transforma-se no ciclo da nossa existência, largar o exemplar do livro é impossível justamente por isso. É algo essencial, jamais se torna monótono ou entediante, sempre é repleto de sentimentos e de cores. Whitman acredita no espírito-matéria, ele busca a vida através dos sons da natureza, da felicidade que desde a antiguidade o homem busca. Através dos inovadores versos livres e de uma linguagem coloquial, a obra ganha uma universalidade tão absurda que é quase impossível não se sentir tocado pela poética perfeita do mestre. 

Não tenho mais o que comentar, Folhas de Relva é um mundo inteiro para se conhecer e revisitar a qualquer hora. Termino o texto com um dos mais famosos e belos poemas do livro e quiçá de todos os tempos:

"Ó meu eu! Ó vida! Das questões que sobre essa são recorrentes,
Dos trens infinitos dos que não têm fé, das cidades cheias de tolos,
Ó eu mesmo para sempre censurando a mim mesmo (pois quem é mais tolo do que eu e quem é mais em [fé?)
De olhos que em vão suplicam pela luz, do meio dos objetos, das lutas sempre renovadas,
Dos pobres resultados de tudo, das laboriosas e sórdidas multidões que vejo em minha volta,    
Dos vazios e inúteis anos dos demais, sendo que também faço parte dos demais,
A questão, ó meu eu, tão triste, recorrente - o que há de bom em meio a tudo isso? Ó meu eu, ó vida?                                                                        
                                          
                                                    Resposta

Que estás aqui - que a vida existe e a identidade,
Que a poderosa peça continua e tu podes contribuir com um verso."

e o meu poema preferido do livro:

"Desconhecido que passa! Não sabes por quanto tempo eu tenho pensado em ti,
Deves ser aquele que eu andava procurando ou aquela que estava 
[desejando encontrar, (vens para mim como num sonho), 
Com certeza vivi uma vida de alegria contigo.
Tudo vem à tona em minha memória quando adejamos um sobre o
[outro, fluidos, afeiçoados, castos, maduros,
Tu cresceste comigo, foste um menino ou uma menina comigo,
Comi e dormi contigo, teu corpo deixou de ser somente teu e o meu
[também deixou de ser só meu,
Deste-me o prazer dos teus olhos, tua face, tua carne e, quando
[passamos, tu levaste os vestígios da minha barba, de meu peito,
De minhas mãos, em troca,
Não quero falar-te, quero pensar em ti quando me sento sozinho ou
[desperto sozinho na noite,
Quero esperar, não duvido que te encontrarei novamente,
Farei tudo para não te perder."

obs.: a tradução da Martin Claret(Luciano Alves Meira) é inexplicavelmente primorosa e não se trata de um plágio. a da Iluminuras(Rodrigo Garcia Lopes) é sensacional, apesar de serem apenas os doze poemas originais. não conferi a da Hedra, mas dizem ser um tanto truncada, estranho, já que a editora é famosa pelas traduções impecáveis tanto em verso quanto em prosa...  a edição da Iluminuras recria o design do original americano de 1855, incluindo fonte e frontispício, uma ótima sacada de parte gráfica. Além disso inclui um ótimo ensaio ilustrado sobre o Whitman e sua obra que ocupa quase 100 páginas do livro.


segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Eu estava no tempo de novo: Capítulo IV

Todo pianista deveria ser considerado poeta, todo poeta deveria ser considerado um bom músico, eu deveria ser considerado não são - pessoas tentam me socializar e assim o pianista deixa de ser poeta, o poeta deixa de ser músico e eu me considero são: típico individualista, uma pessoa cruel e fria, benigna e sentimental, não sei me descrever em outra palavra que não seja sou forte e sigo uma ideia de mundo ao estilo Bernardo Soares esse sou eu eu sou uma boa pessoa e má também o pianista é pianista o poeta é poeta o músico é músico e eu sou são e louco A vida não é linda? Aposto que eu já ""filosofei"" mais do que deveria, sou fraco. 

Meu amigo(e meus leitores), quer que eu revele o que aconteceu comigo aos quatro anos? Sinceramente não lembro de nada dessa época, a partir dos cinco posso falar.

ele aceitou

Tenho uma história curiosa para contar, começou bem assim Papai não deixa eu ir a biblioteca dele Papai tranca a biblioteca Quero ver a biblioteca do papai

"Mamãe deixa eu entrar"

"Não filho"

"Por quê"

"É muito suja"

"Porque não limpam"

"Não tem como entrar é um lugarzinho muito apertado entendeu"

"Acho que sim mama mas não entendo o porquê de eu não poder entrar"

a empregada chega e grita "dona ____ a água acarbô pode me dá vintchê real pra eu comprar urn novo butijan"

"Certo vou procurar lá no quarto" e fiquei só muito bom

Eu sempre faço algo errado, mas esse algo errado deu certo para mim, romantizemos um fato de posterior interesse: agora eu podia entrar na biblioteca do papa era fácil só fazer como Homem-Aranha e Batman e dar um chute na porta Chutei a porta Cai no chão Chorei Gritei Doeu "MAMAAAAA" ela demorou Estive jogado na porta da biblioteca do papi na sala de estar que ficava na minha casa por um tempinho aí mamãe me levou para o médico que examinou meu pé e falou Meu amiguinho uma perna sua ficou defintivamente fraturada preste atenção as duas crescerão mas uma será grande e a outra menor a lesão foi grave senhora seu filho só pode andar de sandálias Eu chorei

                                    *****************

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Eu estava no tempo de novo: Capítulo III

                                                                        Geburt
Miiiiiiiiiiiiii muuuuuu aaaaaaaaaaaaaaaa

Tudo bem filho

Eeen eeeeen craaaaaaaaaaa

Amor por favor ajude o ________

Aaaaaaaaaaannnn

Tudo vai dar certo _________

Esperamos amor

Vamos leva-lo daqui

eeeeeyeheeheehehaaaan ananaanaanan

Ele não para de chorar o que eu faço

Amor me dê o _______

Ok

Eu te amo tanto meu bebê você foi o que eu sempre quis independente de qualquer imprevisto

...

..

.

PLAFT

AMOR O _____ CAIU DO BERÇO

MEU DEUS O QUE FAREMOS

VAMOS AO MÉDICO

AAAAAAMAMAMAKA,AAMAMAAMAMAMAAMAMAAMAMAPAAPAPAPAAPAPAPAAPAPAMAAMAPAAPAPAPAMAMA

PEGUE UM ESPARADRAPO

TOME

MA PA

A CHAVE DO CARRO AMOR

TOME

A CARTEIRA DO HOSPITAL

TOME

VAMOS ENTRAR NO CARRO AMOR

PARA O HOSPITAL

mamama estah soutandur quaqua pelusos olihyus nauiu imintoindiil papa estah soutandur quaqua pelusos olihyus nauiu imintoindiil aguiamaa kabêssa kébradaaa vermeeeeerlho

...

..

.

Sr mé    digo Paulus por que nosso bebê nasceu assim
Senhora ____ gravidez de oito meses o cerébro dele trabalha mais rápido que o normal mas a quantidade de distúrbios mentais dele será imensa você deve sorte de sobreviver a uma gravidez de risco sabia o bebê idem vocês são abençoados o bebê se chama

______

Ah belo nome me lembra sabedoria

Sim mas

Ele quebrou a cabeça certo

Certo

Como você se chama pai

_____

Certo sr ______  lembra como o ______ se fraturou

Caiu do berço enquanto dormia

Ele parece estar sofrendo e agonizando mas tem uma baita resistência para um bebê recém-nascido podem comprar essa pomada aí da receita que estou entregando a vocês boa noite quer dizer boa madrugada


Em quanto tempo poderei avançar? Três anos? Hmmm.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Eu estava no tempo de novo: Capítulo II

Certo, certo. Malditas lembranças do inferno ardem no meu coração.
Sentei em uma carteira, bem próxima ao quadro em que os professores regiam aulas.
Bom dia alunos.
Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia Dia DIA
do meu lado esquerdo estava sentada uma moça estranha aproximei-me dela pronto perguntei
Qual é o seu nome?
Elizabeth.
Nome estrangeiro, interessante.
E o seu?
Esqueça... [hahaahahahaha]
Ei, mal vocês se conhecem e já estão de mãos dadas... é o amor.
NADA DISSO, EU NÃO TENHO SEXO.
HÃ? ~ quê?
parece que toda a sala de aula (ou)viu, merda e o professor chegou, aula de... português, ano passa nada interessante para narrar aqui, eu não acreditava em amor até que comecei a me interessar por anime, assisti ao incrivelmente dócil, bonito [todavia melodramático e arrastado] InuYasha, a personagem Sango conquistou tudo o que eu tinha em meu coração, passei a amar.
             Sim, caso de waifu.
Após humilhações pelo waifuísmo, desisti do amor por um ano, na realidade quase um ano porque aula de português muito interessante merda o professor interrompeu minha leitura
Está lendo o quê?
Doutor Fausto do Mann
     Complexíssimo demais para a sua idade
                 Neeeeeeeem é
                                           Tentei ler Morte em Veneza
CALA A BOCA ________
bradou o coro de alunos e ela olhou para mim sorriu eu avermelhei-me estava namorando ansioso para voltar para casa e redigir cartas de amor para ele aula acabou voltei para casa e lembrei que de dezembro à julho eu tinha waifu e de julho à março eu era sozinho e de março à dezembro eu eu precisava de reciprocidade, conheci a solidão, me aconcheguei nela, passei um curto período da vida sendo niilista anti-ciência & anti-religião, torturei a quem gostava de mim, perdi essas pessoas, vivi na escória e violência. Foi horrível, queria sair de lá o mais rápido possível. Eu consumia Nietzsche, De Sade e seguia uma vida à lá Kiríllov, um terror, terror, queria morrer.
Eu era seu amigo.
Ótimo amigo, hein.
Chega de ironias.
Você me torturou, me fez sofrer...
EU SÓ QUERIA PRAZER, DEBOCHE.

Vou ser logo claro, estranho que passa: Apaixonei-me por um desenho, depois disso restava-me o nada. Nada. Nada. Nada. Eu me considerava um Deus, que a minha vontade era suprema dentro do meu universo metafísico deturpado, sim, era um horror, tudo era frio e sem cor... perdão, tinha um tom cinzento e hostil que superaria até o universo dos contos do Poe, era o microcosmo do inferno - uma representação involuntária das famílias de Faulkner, eu odiava a minha vida, odiava a minha família, eu Acreditava em Deus, meu objetivo principal era mata-lo; ah, passei meu tempo de crítico de religiões lendo Justine, ou os Infortúnios da Virtude, assistindo O Bebê Santo de Mâcon, etc. Foi uma fase conturbada, vivi a adolescência na pré-adolescência, hoje em dia vivo a fase adulta na adolescência, eu até pensaria no futuro, mas acho que já vivo nele, todo o meu passado revoltado se transformou em uma confraternização com repentes de ódio que nunca sairão da minha alma, eu agradeço ao Sr. ________ por isso, eu o conheci no Carnaval de 2016 via internet, foi o período mais glorioso da minha vida, certamente foi.  Existia um chat virtual residido em um site de cultura pop e adivinhem o que ocorreu... sempre acessei esse site, nunca tive coragem de comentar. Estou com quatorze anos, vamos tentaaaaar. Tempo passou, ano novo, 2016, bom ano. Carnaval. Bem, antes devo contar o final de 2015 e quatorze anos antes.  

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017


Lua, pelos pubianos. Como aquele dia havia sido horrível! O barulho ensurdecedor e alheio de algum alto-falante complexo denunciava o gratuito em tudo porque em algum lugar uma mulher dizia eu sei que meu filho está morto. Um jovem pega a sua bicicleta, seu celular tinha um aplicativo que lhe dizia qual caminho deveria seguir, abre o portão de cor preta, era irritante que aquela coisa da bicicleta estivesse muito errada, há dois caminhos, toma o da direita, pedala por treze metros em uma velocidade lenta porque na mão direita tinha que segurar o celular e ali dobrou à esquerda. À esquerda. Lua, pelos pubianos. Lembrou do momento em que ainda estavam todos naquela fila indiana, homens sob a garoa, a mão já tremia um pouco e como por muito tempo depois desejou e esperou que de alguma forma voltasse naquele muito exato momento e então ah como faria diferente como reduziria em um terço pelo menos o sofrimento geral daquela noite daquela noite aquela noite a noite noite. Quanto tempo você leva?- Nunca fiz isso. -Ah, pra ti é só preliminar?- Sim. -E tu? (não responde, olhar que serve para relembrar alguma coisa, o interrogador se lembra dessa coisa e começa a rir, pedindo desculpas. Por que aquilo soava tão engraçado? É uma coisa que não dá para lembrar, talvez depois.) A bicicleta sobe uma lomba, o jovem com dificuldade flexiona a espinha ilíaca ântero-superior da coxa; pensava nas trupes inglesas do séc.XVII, nas suas peregrinações por dinheiro e a arte achava seu caminho por buracos estreitos, escuros. Oh Lua, pelos pubianos. Ainda na fila, ofereceram vinho e ele aceitou?, não queria beber, não queria beber e quando quis já era bem tarde; era bonito, mas será que pensava também no que ele pensava pensava em metafísica? A bicicleta continuava andando e andando, pelas moradas; (o jovem vê um homem); ele chamou “Agamenon!” e eu parei. “Eu tive um sonho ruim, meu Agamenon. Ó meu Agamenon, um sonho tão ruim! Era tão velho, não existia o que quer que fosse que não fosse motivo de arrependimento. E então voltava para a casa e era assassinado por minha mulher e seu amante, obviamente. Ossos do ofício, não é, Agamenon? Agamenon. Agamenon?

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Ainda Esperando...

Já se passaram dois meses desde que terminei esse livro... estou "resenhando" agora, porque ainda estou esperando Godot. Esperando ser eviscerado pelo nada, para no dia seguinte retornar ao mesmo local e com a mesma expectativa. Estou esperando Godot, não vivo entusiasmado, quero sair desse estado de agonia, não dá, nosso autor não permite. Verdade, estou esperando Godot.

Estou caído no chão, completamente abalado física e emocionalmente, jamais morrerei, preciso esperar Godot antes. A minha desilusão estimula essa representação de realidade abominável, se eu não soubesse quem era Godot talvez fosse melhor - eu não o esperaria. Li em Outubro, mas comecei a pensar que desde janeiro eu espero Godot...

E Beckett quebra qualquer esperança nessa obra-prima. Godot é qualquer desejo nosso, qualquer coisa. O ambiente é nossa desolação, qualquer aflição nossa poderia ser o cenário da obra, qualquer pesadelo... ainda estou esperando.
Sou fraco.
Sim, sou fraco.
Por que ainda espero algo que nunca chegará?
Esquecimento?
Não.
Esperança?
Talvez, mas nesse caso ela é bastante ineficaz.
Godot?
Quem?
Godot.
Não entendi.

Só espere.

Tu serás testemunha.
 Razumíkhin em Crime e Castigo de Dostoiévski

A ótima edição da Companhia das Letras para Esperando Godot, com exepcional tradução de Fábio de Souza Andrade e uma belíssima capa de Georg Baselitz, recheada de extras como leituras adicionais e três posfácios.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Eu estava no tempo de novo: Capítulo I

Eu namoro a mais popular garota da escola. Seja na minha mente ou por fora. Da realidade sombria em que vivo, eu verdadeiramente digo:
Impossível eu namorar, Não consigo aturar gente que diz me amar.
Talvez o namoro (com a mais popular garota da escola) fosse só uma desculpa para gerar exepectativa. Mas leitor, saberia me dizer: O que acontece com o meu coração?
- Talvez esteja partido?
Acho que não Estou com dificuldades

E grito "Eu não gosto de ninguém, principalmente de gente que já
Me fez sofrer.
Não namorei ninguém de verdade. Porque quem eu amei Eu não amei E deixei de amar O que não foi amado Mas ao mesmo tempo foi. Minha vida de puro coração Vem do zero de emoção.
Muita dor na alma e puro som em uma vida sem cor e nem dom
artístico, ó arte, ó vida, O garoto de não-contrapartida, acaba de se tornar um monstro:
- Eu sou um ex-anjo, agora quero uma família, disse o pequenino.
Assim o pequenino _______ esteve durante cem anos de tragédias à lá Eurípides às avessas: uma tortura dolorosa sem fim, sem engajamento social politizado, sem humor engraçado, sem amor amado. Digamos que ele seja um Slothtrop ou Fabrice del Dongo - a situação o domina em vez da razão. Uma facada parte seu coração, sua pele se destrói, ele morre, Nunca foi um anjo Era um demônio Mas todo anjo é um demônio Foda-se não acredito em Deus onisciente, prepotente, imbecil, inteligente, pouco importa o que eu seja, sou um anjo e não sei se a primeira ou a terceira pessoa que eu converso estão satisfeitos comigo, porque já falei, sou autista. Lembra disso? Sim, eu lembro disso.

Ele não acredita em mim, ela também não, e tu? Creio que você seja confiável  E você? Não
Por que não? estou com medo, você e tu são meus complementos, se vocês estão dentro de mim, posso fazer um pouco de força, tentar aguentar a dor. Confesso que enrubesci. Estou nauseabundo e de nada posso fazer para revigorar-me, a não ser que minha índole passe de Quentin Compson para Raskólnikov. Melhor só matar o meu lado pédant e viver sentimentalmente aprisionado apenas aos meus ideais estéticos-filosóficos. Cansei da (minha) vida real fracassada, eu desejo a boa ficção literária como cerne de tudo o que eu desejo e amo; não abandono o próximo, minha bondade e compaixão farão com que eu viva a vida viva da maneira mais vivamente espiritual possível. Não quero uma ressurreição como a do Ródia em Crime e Castigo, muito menos uma mera redenção, quero minha saúde, minha alma, minha arte, o verde do campo, o azul dos céus, a liberdade almática! Enfim, em primeiro plano matei o você, na segunda camada tu morreste, assim nasceu minha vida. Uma Vida na qual o protagonista já estava vivo antes - só não sabia.

Pouco depois:
- Bom dia, caro leitor, é tão bom saber que você está aqui! Gostaria de ver minha micro-micro-micro-micro(e pessoal) Biblioteca de Babel? Sim? Que maravilha! perguntaram-me quais meus livros preferidos, fui rápido: MEU AMIGO!, gritei Claro que O Som e a Fúria está acima de tudo, amo A Montanha Mágica, Os Irmãos Karmázov e Guerra e Paz, mas para a minha formação estética, como percebe no que está lendo AGORA, esse romance moldou quase todas as minhas artimanhas, eis uma diferença crucial: o meu itálico representa eu, tu, passado, futuro. Não sou totalmente Faulkneriano, é difícil imitar uma entidade quase divina. Eu disse quase, sou überschritten, ultrapassado, enfim, sou Eu. Autêntico, prometo que jamais mentirei, tudo bem? Ah! Eu não namoro. Não quero. Tenho medo. Sou bobo. Nasci bobo. Posso esclarecer o porquê do relacionamento amoroso ser do meu passado?
Certo, tudo começou quando eu tinha 13-14 anos.

•••••••continua•••••••

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Arte para mim

 
Saturno Devorando o Seu Filho, Goya.

Arte para mim não é entretenimento ou algo para ser bonito. É algo que mexe contigo, seja de maneira emocional ou física.
eu consumisse arte por beleza eu certamente estaria escutando uma Sinfonia Mozartiana ou estudando telas de Dürer.
Eu sempre preferi a visceralidade artística, como um romance do Faulkner recheado de fluxo de consciência ou uma partita do Bach cheia de fugas.
Os artistas de hoje tomaram uma veia extremamente industrial e sem vergonha nenhuma de esconder isso. É fácil dirigir uma obra cinematográfica que é uma colcha de retalhos referenciando outros criadores, escrever romances de horror 100% focados em enredos e 0% em estética e pintar Gatinhos em um pseudocubismo-pop-art. Assim, a arte popular poderia ser considerada muito bem um comércio de entretenimento barato.

Minha concepeção de Arte provém da Catarse, a purificação de nossa alma, aquela libertação etéra do bem e do mal dentro de nós; a Arte faz parte de nosso espírito, a criatividade está em todos nós. Se a obra não nos tocar, ou ela é um material de baixa qualidade ou apenas existe para gerar lucro.
O que difere um artista puro de um artista business é o amor pela criação, segue um pequeno trecho do discurso de William Faulkner  quando foi laureado com o Nobel:
Our tragedy today is a general and universal physical fear so long sustained by now that we can even bear it. There are no longer problems of the spirit. There is only the question: When will I be blown up? Because of this, the young man or woman writing today has forgotten the problems of the human heart in conflict with itself which alone can make good writing because only that is worth writing about, worth the agony and the sweat.
O autor vive pela obra, sente ela, vive ela, não faz por puro escapismo, ele deve respirar Arte, servir, saciar toda a vontade presente nele, isso é arte.

A Arte é mais do que aparenta, digamos, admiro o George Orwell, os ensaios dele são sensacionais, mas tenho problemas com o 1984 por ser um livro seco, frio e sem vida, mas se compararmos com o clássico ensaio dele dissecando Viagens de Gulliver do Jonathan Swift, vemos a pura diferença, aí o Orwell se solta, cria um texto colorido(lembrando que Gulliver é um dos mais aterradores e destruidores livros de nosso cânone literário). A escrita "feia" de 1984 existe para mostrar a total falta de vida do universo da distopia. O bom artista molda sua estética dessa maneira.
Lembro de quando eu tinha mais ou menos cinco anos de idade e ao ver a pintura Saturno Devorando o Seu Filho do Goya fiquei em choque. Até hoje é para mim o ápice do grotesco e do gore. Mas mesmo assim não ofende. Obras que tentam todo shock-value possível como o filme Melancholie der Engel de Marian Dora ou o romance Os 120 Dias de Sodoma, ou a escola da libertinagem do Marquês de Sade não chegam a esse nível de sublime desconforto.
O bom artista deve SEMPRE se focar na forma, o conteúdo é para ser pensado, a forma aplicada.

Podemos fazer a seguinte dedução sobre quem é mais artista:
Vamos supor:
1- o Stephen King escreve um romance e no meio do livro ele para a narração da história com intuito de fazer um flashback.

2- Kandinsky pinta uma tela da série Composições, totalmente subjetiva e que pouco acrescenta no observador, apenas um pequeno caos psicológico.

3- o Faulkner escreve um romance, ele NÃO para a história, pois ele vai utilizar os distúrbios do narrador-personagem para reviver as memórias do passado enquanto o presente se desenrola, indicando a mudança de tempo através da fonte em itálico.
Entendem? A forma e o conteúdo se complementam. Essa é a evolução do mercadológico, para o totalmente intimista até chegarmos na obra de arte total.

Para finalizar, mostrarei como a essência estética e o conteúdo se completam:
As Meninas.
A primeira imagem é a original barroca do Velázquez, a seguinte é a releitura do Picasso.
O conteúdo foi perdido? Nāo.
A estilística mudou? Sim.
Os contextos? Sim, uma é encomenda real e outra uma brincadeira metalinguística, mas esse não é o caso, afinal de contas, metalinguagem não é arte? Sim, seja pelo bem ou pelo mal.





texto extraído de uma conversa que eu tive com uma pessoa que eu amei muito...

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Algumas Explicações

Ele sempre foi três em um: inteligente, incestuoso e retardado; um inteligente pode ser incestuoso e um incestuoso pode ser retardado, mas jamais um retardado pode ser inteligente - figuras como Caravaggio e Wagner são exeções, são Übermensch. E o que faz de um Lilin um super-homem? Obviamente a criatividade, qual é a razão de apreciarmos a chamada "alta cultura"? Ela faz com que nós imaginemos o universo a partir de infinitos pontos de vista. Nosso protagonista, enfim, eu, é um pedaço de dor casado com a agonia, odeia a família e encontra sua redenção(ou seria pura inveja?) em uma garota que o trata como irmão. A intertextualidade a partir de nosso personagem dividido com o segundo capítulo do romance O Som e a Fúria de William Faulkner é explícito. O tempo se desmancha, tal qual a pintura A Persistência da Memória de Dalí, e ainda assim nunca some. O passado perseguirá o casal que nunca se uniu até o fim da vida deles.
No momento em que a moça prefere o italiano a eu, é claro que eu sou um animal de estimação dela(não foi gratuito que o flashback que cruza meu alter ego resfriado com o presente dela é o gato Boris doente). Tentar romancear um período difícil da minha vida e misturar com um futuro especulativo em que eu descarto qualquer sci-fi ou fantasia foi uma aposta arriscada. Percebi que confundi alguns leitores, que nem perceberam se passar por uma autobiografia disfarçada de ficção, isso me deixa feliz; como quem lê Lolita e leva a sério aquela introdução do Nabokov, mas nesse caso foi um tanto mais intimista.
Eu não nego: sou escritor amador, apenas copiei a estética Faulkneriana e a simplifiquei. Quero apenas esclarecer: eu nunca a esquecerei, por mais que saiba que ela é monstruosa. Pelo menos rende momentos ao mesmo tempo de dor e prazer, como escrever esse pequeno ciclo de estórias em um lugar sem tempo, sem política, sem o que nós chamamos de realidade. Esse é o meu mundo, o qual eu ergui e me apaixonei.

Apêndice

Eu sou um eterno masturbador de sonhos. Indago-me: por que tudo é tão belo? Respondo-me: sou um erro Eu me considero feliz sabia Todos m...